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Persepolis

Julho 22, 2008

Novamente atrasado… Desta vez num ano inteiro!

Mas vamos por pontos.

Primeiro, nunca gostei muito do cinema francês. Sempre o achei mais artístico que divertido. Não me interpretem mal, eu gosto bastante de inovações na arte, mas se poderem ser acompanhadas de elementos de diversão prefiro muito mais. Normalmente não sou homem que gosto de ver um filme que não corresponda aos meus gostos, e que me entedie. Ora, normalmente o cinema francês é assim. Quero dizer, gostei bastante de “Os Cavaleiros do Apocalipse”, “Ad Vitam” e do melhor dos filmes do Asterix, mas normalmente tendo a evitar qualquer filme em que se fale francês.

Segundo. Sei que não deveria sentir isto, uma vez que estudo Antropologia, mas, como bem sei, sou um cidadão do meu país e do meu tempo, como tal estou sujeito às deturpações e às imagens transmitidas pelos media. E também a companhias com opiniões muito pouco subtis. Sinceramente nunca tive muita simpatia pelos povos do médio oriente, ou pela religião Islâmica. Não me quero desculpar aqui, sei que não deveria ter este tipo de opiniões. Mas tinha…

O caso é que recentemente acabei por ver transformadas estas duas opiniões. Por causa de um só filme e, creio que é justo dizê-lo, por causa de uma só pessoa.

Estava num dos intervalos do meu emprego, quando decidi ir dar um passeio na FNAC, uma loja que vende um pouco de tudo que seja arte, videojogos, filmes, livros… Quando vi em exibição um filme de animação a preto e branco, com uma animação simples mas um jogo de sombras fantástico. E era em francês. Pensei para mim que era mais um daqueles idiotas filmes artísticos franceses, e resolvi aproximar-me para gozar um pouco. Fiquei ali uma hora e só me fui embora porque já eram horas de ir trabalhar. E não gozei sequer um segundo com aquilo. Fiquei agarrado ao filme, fiquei apaixonado pela personagem principal, fiquei num êxtase de compreensão de todo um povo e de mim mesmo.

O filme chama-se Persépolis, e foi o filme que mais deu que falar na entrega dos prémios Óscar de 2007, na categoria de animação. Não ganhou o prémio, pois, como se sabe, os valores comerciais entram primeiro nestas coisas. A animação é simples, mas funcional, como as sequências da actualidade a cores e as sequências do passado, a maior parte do filme, a preto e branco. De um modo delicado, traduz os sentimentos tão eficientemente, que somos arrastados para a história, e sentimos na pele a alegria e tristeza, a maravilha e a dúvida, a diversão e a decepção…

Segue a história verdadeira da juventude de Marjane Satrapi, uma rapariga iraniana, que vive, na sua infância, a revolução que derrubou o Xá do Irão, e trouxe a teocracia que actualmente governa, assim como a inútil guerra com o Iraque. Na sua adolescência viveu os loucos anos 80 na Áustria. E, na sua juventude adulta, viveu o formato actual da teocracia iraniana. Uma das coisas que me atraiu foi mesmo este fantástico enquadramento histórico, que acompanha eventos que já conhecia, mas cujos detalhes me escapavam. O problema da informação de perspectiva predominantemente ocidental.

A  jovem Marjane é uma pessoa fantástica, fortemente influenciada pelos seus educados pais e por uma avó que ainda conheceu o domínio inglês do território. Cresce como uma jovem iraniana independente e de personalidade forte. Um pouco o contrário daquilo que o mainstream ocidental acredita em relação às mulheres daquelas zonas…

E a vida dela, de facto, deu um filme…

Como disse Stephen Colbert, corremos o risco de começar a ver os iranianos como seres humanos ao ver este filme. Ele foi algo criticado pelo seu sarcasmo, mas eu compreendo perfeitamente o que ele disse, pois é o que eu sinto. Vemos as festas ilegais que as pessoas fazem para se divertir e escapar, nem que seja por uns minutos, à repressão. Vemos  os jovens a comprar filmes e música ocidental no mercado negro. Vemos as raparigas a fazerem olhinhos aos rapazes, não obstante a repressão religiosa. Vemos pessoas a tentarem, simplesmente, ser pessoas. Eu vejo tantos paralelos com o que vivemos aqui em Portugal durante o Estado Novo que fiquei mesmo naquela do “como pude ser tão cego?” As pessoas são iguais em todo o lado. Apenas o contexto muda…

Aconselho este filme a toda a gente. Merece e deve ser visto. Mudou a minha perspectiva, talvez muda a de tantos outros. É agora um dos meus filmes preferidos.

Obrigado, Marjane Satrapi, por partilhares o teu mundo com todos nós.

Pelos vistos, uma só pessoa pode mesmo mudar o mundo. Ou, pelo menos, parte dele.

E agora, para quem viu o filme:

Went the distance, now I’m back on my feet
Just a man and his will to survive

Vosso, S7alker.

Um comentário

  1. texto ótimo, traduz exatamente o que eu senti ao ver o filme!

    parabéns!



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